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Dito e Feito

Dito e Feito

12 de March, 2026 3 min de leitura Otávio Lemos Otávio Lemos

Você já parou para pensar por que dizemos que alguém está "com a pulga atrás da orelha" ou que um plano "deu em pizza"? O nosso cotidiano é repleto de metáforas que sobreviveram aos séculos, cruzaram oceanos e se adaptaram à nossa cultura.

Livros antigos e lupa representando pesquisa histórica

1. "Lavar a égua"

Hoje, usamos essa expressão para dizer que alguém se deu bem ou tirou proveito de uma situação. Mas a origem vem do turfe (corridas de cavalos). Antigamente, após uma vitória inesperada que rendia muito dinheiro em apostas, os donos dos cavalos literalmente lavavam seus animais com champanhe ou misturas especiais para celebrar a glória e o prêmio recebido.

2. "Onde Judas perdeu as botas"

Todo mundo sabe que esse lugar é muito longe, mas por que Judas? Segundo a tradição cristã, após trair Jesus e tirar a própria vida, Judas teria sido encontrado sem as moedas de prata e sem as botas. A lenda conta que ele escondeu o dinheiro dentro do calçado e o jogou em um lugar remoto e inacessível. Os soldados teriam procurado incansavelmente por esse "lugar onde ele perdeu as botas" para recuperar o tesouro.

3. "Pensando na morte da bezerra"

Se você está distraído ou melancólico, certamente já ouviu isso. A origem é bíblica e ligada aos sacrifícios de animais. Absalão, filho do Rei Davi, teria oferecido uma bezerra em sacrifício. No entanto, o animal era o preferido de sua filha, que passou dias sentada ao lado do altar, triste e estática, apenas observando o vazio e "pensando na morte da bezerra".

Imagem de bússola antiga sugerindo caminhos e histórias

4. "Dar com os burros n'água"

Essa expressão remete ao período colonial do Brasil. Os tropeiros utilizavam burros e mulas para transportar mercadorias por caminhos lamacentos e rios cheios. Quando o animal, carregado de carga pesada, tentava atravessar um trecho muito fundo ou escorregadio, ele acabava caindo ou afundando. O tropeiro, então, perdia a viagem e o lucro, tendo literalmente "dado com os burros n'água".

5. "Salvo pelo gongo"

Muitos acreditam que vem do boxe, mas a teoria mais curiosa (embora debatida por historiadores) remete ao século XIX. O medo de ser enterrado vivo (tafofobia) era comum. Por isso, foram criados "caixões de segurança" que tinham uma corda ligada a um sino/gongo do lado de fora. Se a pessoa acordasse, ela tocava o sino e era "salva pelo gongo".

6. "Acabar em pizza"

Esta é genuinamente brasileira e nasceu no futebol. Na década de 60, o Palmeiras passava por uma crise administrativa intensa. Após uma reunião de 14 horas de discussões acaloradas entre os dirigentes, a fome bateu. O grupo foi a uma pizzaria, pediu 18 pizzas grandes e a paz foi selada entre goles de vinho e fatias de mussarela. O jornalista Milton Peruzzi, que cobria o evento, publicou a manchete: "Crise do Palmeiras termina em pizza".

Pizza saindo do forno a lenha

7. "Chorar as pitangas"

Antigamente, as lágrimas de quem sofria muito eram comparadas à cor vermelha da pitanga, sugerindo que a pessoa chorava tanto que seus olhos ficavam vermelhos como a fruta, ou até que chorava sangue. É uma forma poética (e um pouco dramática) de descrever lamentações excessivas.

Conclusão

As expressões populares são fósseis linguísticos que guardam a memória de um povo. Elas provam que a língua não é apenas um conjunto de regras, mas um organismo vivo, moldado por tropeiros, reis, esportistas e até lendas religiosas.

Otávio Lemos

Sobre Otávio Lemos

Sabe aquela pergunta que ninguém faz, mas todo mundo quer saber a resposta? Eu investigo o inusitado para provar que o mundo é muito mais estranho do que parece.

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