O Pranto do Mal (2024)
Beatriz Fontana
O cinema de gênero espanhol sempre teve uma assinatura única: a capacidade de misturar o drama humano profundo com o horror visceral. Em 2024, essa tradição ganha um novo capítulo essencial com O Pranto do Mal (título original: El Llanto). Dirigido por Pedro Martín-Calero e coescrito por Isabel Peña (conhecida por seu trabalho em As Bestas), o longa não é apenas mais um filme de sustos fáceis, mas uma construção atmosférica que ecoa na mente do espectador muito após os créditos subirem.
A Trama: Um Mal que Atravessa Gerações
A narrativa de O Pranto do Mal é estruturada de forma inteligente, conectando três mulheres em tempos diferentes, mas unidas por uma presença invisível e aterrorizante. O filme começa com Andrea (interpretada pela estrela de Elite, Ester Expósito), uma jovem que começa a ouvir um choro angustiante e a sentir que está sendo perseguida por algo que as câmeras não conseguem captar totalmente.
O que torna o roteiro de Peña tão eficaz é a forma como ele utiliza o "mal" como uma metáfora para traumas sistêmicos. As protagonistas não estão apenas fugindo de um monstro, mas de uma herança de violência e silenciamento que se manifesta através de uma entidade sobrenatural. A estrutura em tríptico permite que o espectador monte o quebra-cabeça de como esse "pranto" começou e por que ele escolhe suas vítimas.
O Brilho de Ester Expósito
Muitos conhecem Ester Expósito por papéis em produções adolescentes, mas aqui ela entrega uma performance de maturidade impressionante. Sua transição da curiosidade cética para o terror absoluto é palpável. Ela carrega o primeiro ato do filme com uma vulnerabilidade que ancora o elemento fantástico na realidade, tornando a ameaça muito mais próxima do público.
Por que este filme se destaca em 2024?
Em um ano saturado de sequências e remakes, O Pranto do Mal se diferencia por três pilares principais:
- Cinematografia Minimalista: O uso de espaços vazios e o enquadramento de câmeras de segurança ou celulares criam uma sensação de voyeurismo constante.
- Design de Som: Como o título sugere, o som é o protagonista. O choro titular é desenhado para ser desconfortável, variando entre o lamento humano e um ruído digital distorcido.
- Terror Social: O filme dialoga com temas contemporâneos sobre a segurança feminina e o isolamento na era digital, sem soar didático ou forçado.
Vale a pena assistir?
Se você é fã de um terror mais cadenciado, focado em atmosfera e desenvolvimento de personagem (na linhagem de filmes como Corrente do Mal ou o clássico espanhol O Orfanato), a resposta é um retumbante sim. Prepare-se para um filme que exige atenção aos detalhes e recompensa o espectador com uma conclusão que é, ao mesmo tempo, trágica e aterrorizante.
"O Pranto do Mal prova que o cinema espanhol continua sendo a vanguarda do horror europeu, transformando o invisível no nosso maior medo."
Sobre Beatriz Fontana
Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.
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