O Épico Oculto da Netflix que Você Precisa Ver
Beatriz Fontana
A Obra-Prima Oculta do Cinema Histórico Sul-Coreano
Antes de chocar o planeta e quebrar recordes globais com o fenômeno Round 6 (Squid Game), o diretor sul-coreano Hwang Dong-hyuk entregou ao mundo uma das produções históricas mais densas, frias e brilhantes do século XXI. Lançado em 2017 sob o título original Namhan-san-seong (e distribuído internacionalmente como The Fortress), Nas Muralhas da Fortaleza afasta-se deliberadamente do glamour dos blockbusters de ação de Hollywood para focar no peso esmagador das palavras, da diplomacia e da sobrevivência humana em condições extremas.
Baseado no aclamado romance histórico de Kim Hoon, o longa-metragem reconstrói com precisão cirúrgica a Segunda Invasão Manchu na Coreia, ocorrida no inverno de 1636. Longe de ser apenas mais um filme de batalhas coreografadas e heroísmo utópico, a obra se consolida como um poderoso ensaio político sobre o orgulho nacional, a crueldade do inverno e a terrível arte de escolher entre uma morte honrada ou uma vida humilhante.
O Contexto Histórico: O Reino de Joseon Encurralado
A trama se passa no 14º ano do reinado do Rei Injo (interpretado com uma fragilidade angustiante por Park Hae-il). O Reino de Joseon encontra-se espremido entre as engrenagens geopolíticas do leste asiático: a decadente Dinastia Ming, com quem os coreanos mantêm uma aliança histórica de lealdade, e a ascendente Dinastia Qing (os Manchus), que exige submissão total da península.
Quando as forças Qing invadem a Coreia com um exército avassalador de 150.000 soldados, o Rei Injo e sua corte real são forçados a fugir da capital e buscar refúgio em Namhansanseong — uma fortaleza montanhosa localizada nos arredores da atual Seul. Isolados no topo do mundo, cercados por um inimigo implacável e castigados por um inverno impiedoso que congela os ossos, os líderes da nação se veem presos em um impasse geográfico e existencial que dura 47 dias.
O Embate Ideológico: O Coração do Roteiro
Embora o cerco militar traga momentos de tensão física, o verdadeiro campo de batalha de Nas Muralhas da Fortaleza acontece nos aposentos escuros e gélidos do palácio improvisado. O roteiro de Hwang Dong-hyuk brilha ao personificar o dilema central da sobrevivência do Estado em dois ministros e conselheiros reais com visões diametralmente opostas.
- Choi Myung-kil (Lee Byung-hun): O Ministro do Interior. Ele assume uma postura pragmática, quase utilitarista. Choi argumenta que a maior virtude de um rei é proteger a vida de seu povo e a continuidade da linhagem, mesmo que isso custe o orgulho da nação. Para ele, ajoelhar-se temporariamente diante do Khan da Dinastia Qing e aceitar termos de paz humilhantes é um preço justo para evitar a aniquilação completa de Joseon.
- Kim Sang-heon (Kim Yun-seok): O Ministro dos Ritos. Representante fervoroso dos valores morais neoconfucianos, Kim defende a resistência armada até o último homem. Para ele, viver sob a bota de invasores considerados "bárbaros" e trair a aliança com os Ming é uma morte espiritual pior do que o extermínio físico. Ele prefere ver a fortaleza desmoronar em chamas a testemunhar a soberania coreana se curvar à humilhação.
A dinâmica entre Lee Byung-hun e Kim Yun-seok é um espetáculo interpretativo. Não há heróis ou vilões absolutos em seus discursos; ambos amam genuinamente seu país e seu rei, mas enxergam caminhos opostos para a preservação desse amor. O espectador é constantemente jogado de um lado para o outro, questionando-se: o que vale mais, a dignidade abstrata de uma cultura ou a carne viva de seus cidadãos?
A corte encurralada: o Rei Injo diante do doloroso debate entre a honra da morte e o pragmatismo da sobrevivência.
A Estética do Frio e do Desespero
Visualmente, o longa é um triunfo técnico. O diretor de fotografia Kim Ji-yong (premiado internacionalmente pelo trabalho nesta obra) utiliza uma paleta de cores dessaturada, dominada por tons de cinza, branco e azul-escuro. A sensação de frio não é apenas visual, ela é tátil. O espectador quase consegue sentir a geada acumulando-se nas armaduras dos soldados, a fumaça espessa que sai da boca dos personagens a cada palavra proferida e a escassez de recursos que consome a guarnição.
Ao contrário dos épicos convencionais onde os soldados comuns são meros figurantes sem rosto, aqui eles sofrem ativamente com a incompetência burocrática dos generais de gabinete. Enquanto os nobres debatem filosofia e termos gramaticais em panfletos diplomáticos dentro de salas aquecidas, os sentinelas nas muralhas congelam, sacrificando seus próprios casacos de palha para alimentar os cavalos de guerra por ordens superiores descabidas.
Toda essa atmosfera melancólica e opressiva é amarrada de forma magistral pela trilha sonora composta pelo lendário mestre japonês Ryuichi Sakamoto. Em uma de suas colaborações cinematográficas mais marcantes e contidas, Sakamoto utiliza cordas fúnebres e notas minimalistas de piano que ecoam como o lamento silencioso de uma nação à beira do abismo.
Por que Você Deve Assistir?
Nas Muralhas da Fortaleza destaca-se no catálogo de produções asiáticas justamente por sua recusa em entregar soluções fáceis ou catarse emocional barata. As sequências de combate físico — quando ocorrem — são brutais, desajeitadas e trágicas, mostrando o verdadeiro terror da pólvora primitiva e dos confrontos à queima-roupa na neve profunda. O filme opta pelo suspense do desgaste e pelo peso das decisões de governantes que sabem que qualquer palavra errada custará milhares de vidas.
Para quem busca entender a versatilidade de Hwang Dong-hyuk antes do estrelato ocidental, ou simplesmente para os amantes de um cinema histórico maduro, intelectual e esteticamente impecável, este longa disponível na Netflix é uma recomendação obrigatória. É uma obra que não subestima a inteligência de quem assiste e que permanece na mente muito tempo após os créditos finais rolarem, ecoando a perene lição de que, na geopolítica dos impérios, os pequenos Estados pagam suas escolhas com lágrimas e sangue.
Sobre Beatriz Fontana
Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.
Comentários Exclusivos
A seção de comentários é reservada para assinantes Pro e Master.