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Hokum: O Melhor Terror Psicológico de 2026?

Hokum: O Melhor Terror Psicológico de 2026?

02 de June, 2026 6 min de leitura Beatriz Fontana Beatriz Fontana

O cinema de terror contemporâneo tem encontrado sua força máxima não nos sustos fáceis causados por sobressaltos sonoros (os famosos jump scares), mas na construção gradual de uma atmosfera densa e inescapável. Sob a direção precisa do cineasta irlandês Damian McCarthy — que recentemente impressionou o público com Oddity: Objetos Obscuros —, Hokum: O Pesadelo da Bruxa (2026) consolida-se como um dos exemplares mais perturbadores do ano. O longa transita com maestria entre o horror folclórico e o colapso psicológico da mente humana.

Distribuído na América Latina pela Diamond Films, o filme utiliza a vastidão isolada da Irlanda e os segredos de uma pousada antiga para tecer uma narrativa que perverte nossos sentimentos mais íntimos: a culpa, o arrependimento e a herança familiar. No centro desse turbilhão está o escritor Ohm Bauman, vivido por um surpreendente e sombrio Adam Scott.

A Trama: Cinzas, Segredos e a Suíte de Lua de Mel

A premissa de Hokum se ancora em uma jornada de despedida que rapidamente se deteriora. Ohm Bauman (Adam Scott) é um escritor solitário e visivelmente atormentado que viaja até uma pousada remota em solo irlandês, o Billberry Lodge. Seu objetivo inicial é dolorosamente simples: cumprir o último desejo de seus pais falecidos e espalhar as cinzas do casal naquele que outrora foi um local de felicidade para eles.

No entanto, a recepção no hotel — uma propriedade com arquitetura de antigo pavilhão de caça — desfaz qualquer ilusão de paz. O proprietário idoso introduz uma atmosfera de desconforto imediato ao compartilhar com os hóspedes as lendas sombrias locais. Entre as histórias sussurradas, destaca-se a de uma bruxa secular que supostamente assombra a proibida suíte de lua de mel.

Pousada isolada envolta em névoa noturna, representando a ambientação de Hokum

A névoa e o isolamento geográfico da pousada estipulam o tom claustrofóbico do filme.

Ohm, caracterizado por uma postura cética e por vezes arrogante, ignora os avisos. A situação foge completamente do controle quando o sobrenatural invade o plano onírico. A entidade começa a colonizar os sonhos do escritor, misturando memórias distorcidas de seu passado com visões aterrorizantes. Para piorar o cenário de pesadelo, um desaparecimento misterioso abala a pequena comunidade local em pleno Halloween, deixando Ohm no epicentro de uma investigação hostil e cercado por forças que ele não consegue compreender ou combater.

Adam Scott e a Anatomia de um Protagonista Falho

Conhecido mundialmente por papéis que equilibram o cinismo e a vulnerabilidade — como na aclamada série Ruptura (Severance) —, Adam Scott entrega em Hokum uma de suas atuações mais viscerais. Distanciando-se do carisma habitual, seu Ohm Bauman é um homem difícil de se simpatizar logo de início. Ele carrega a arrogância típica de quem usa o intelecto como armadura contra a dor, tratando os outros ao seu redor com uma frieza cortante.

Essa escolha de design de personagem é um dos grandes acertos do roteiro. Ao não nos entregar um protagonista puramente virtuoso, McCarthy eleva a tensão: nós não tememos apenas pela vida de Ohm, mas tememos o que ele esconde. Conforme o filme avança e o isolamento na pousada aumenta, Scott desconstrói essa fachada de forma brilhante, revelando um homem em frangalhos, esmagado pela culpa do luto e pela iminência da perda total de sanidade.

O elenco de apoio, que conta com nomes de peso como David Wilmot, Austin Amelio e Peter Coonan (no papel do gerente do hotel), cria um contraponto perfeito. Cada interação na tela exala desconfiança. Na comunidade que cerca o Billberry Lodge, todos parecem guardar segredos tão antigos quanto as pedras que sustentam a pousada, isolando Ohm ainda mais em sua paranoia.

A Direção de Damian McCarthy: O Poder da Contenção

Se o terror comercial moderno frequentemente peca pelo excesso de estímulos visuais e cortes rápidos, Damian McCarthy caminha na direção oposta. O diretor demonstra um entendimento profundo de que o medo reside naquilo que não vemos por completo, ou no que permanece à espreita nas bordas do enquadramento.

A câmera em Hokum move-se de forma lenta, quase cirúrgica, explorando os corredores escuros, o papel de parede decadente e o silêncio opressor do hotel. Quando os monstros — tanto literais quanto metafóricos — finalmente aparecem, eles não surgem para um susto rápido. McCarthy constrói imagens estáticas que perfuram a retina do espectador, gerando um desconforto duradouro.

Corredor escuro e antigo de um hotel, remetendo à opressão visual do Billberry Lodge

A direção de fotografia foca no confinamento dos espaços internos para amplificar a paranoia.

O diretor repete e aprimora uma temática já vista em seus trabalhos anteriores: a perversão de medos primordiais. O medo de ser enterrado vivo, a perda total de controle sobre as próprias ações e a condenação ao tormento eterno são costurados à mitologia da bruxa de forma orgânica. Não se trata apenas de uma assombração física, mas de uma força malevolente que se alimenta dos remorsos não ditos do protagonista.

Terror Folclórico e o Peso do Passado

O folclore irlandês é rico em entidades ligadas à terra, ao luto e aos avisos de morte. Em Hokum, a figura da bruxa se afasta dos clichês caricatos de Hollywood. Ela funciona como uma manifestação da Lei do Retorno e do acerto de contas com o passado. A suíte de lua de mel, interditada aos hóspedes normais, torna-se um santuário profano onde as barreiras entre o tempo presente e os erros passados deixam de existir.

A metáfora do escritor atormentado ganha novas camadas. No início da projeção, somos apresentados a trechos da ficção sombria escrita por Ohm — uma história perturbadora sobre um homem que sacrifica uma criança para estilhaçar uma garrafa que contém um mapa. Essa rima narrativa prepara o público para a revelação de que os monstros literais que habitam a pousada podem não ser os únicos predadores da história. A crueldade humana e a negligência afetiva mostram-se tão destrutivas quanto qualquer feitiçaria antiga.

Considerações Finais: Por que Hokum é Imperdível?

Hokum: O Pesadelo da Bruxa triunfa porque respeita a inteligência do espectador e a tradição do terror atmosférico. Ao abdicar de soluções fáceis e focar no desenvolvimento psicológico de seu protagonista, o filme entrega uma experiência imersiva e terrivelmente incômoda. É uma obra que se recusa a abandonar a mente do público assim que os créditos sobem.

Para os entusiastas do gênero que buscam histórias densas, atuações calibradas e uma direção que compreende o poder do silêncio e da escuridão, o longa de Damian McCarthy é uma parada obrigatória nos cinemas. Prepare-se para entrar no Billberry Lodge, mas saiba que, assim como para Ohm Bauman, revirar o passado pode cobrar um preço alto demais.

Beatriz Fontana

Sobre Beatriz Fontana

Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.

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