Dia D Dividiu o Cinema: É o Novo Arquivo X de Spielberg?
Por Beatriz Fontana
A ficção científica sempre foi o espelho retrovisor e o para-brisa das obsessões humanas. Quando Steven Spielberg anunciou seu retorno ao universo da ufologia com "Dia D" (título original: Disclosure Day), o mundo do cinema prendeu a respiração. Afinal, estamos falando do homem que moldou nossa imaginação coletiva sobre a vida extraterrestre de forma pacífica e tocante em Contatos Imediatos do Terceiro Grau (1977) e E.T. – O Extraterrestre (1982), mas que também nos aterrorizou com o caos visceral de Guerra dos Mundos (2005).
Agora, em plena temporada de grandes lançamentos, o longa chega gerando um fenômeno curioso nas saídas das salas de exibição: a polarização absoluta. Não há meio-termo. Enquanto uma ala da crítica aclama a produção como uma obra-prima de suspense contemporâneo, parte do público sai das sessões tonta, tentando processar uma narrativa que troca o deslumbramento lúdico por uma tensão burocrática, política e psicológica.
A Atmosfera de Conspiração: O DNA de Arquivo X e Taken
Se você foi ao cinema esperando criaturinhas de dedos brilhantes ou naves destruindo monumentos em Nova York, a quebra de expectativa é o primeiro impacto. O filme se sustenta em uma fundação muito mais sombria e cerebral. Para quem cresceu assistindo à televisão dos anos 1990 e início dos anos 2000, a sensação de familiaridade é imediata. "Dia D" evoca, com precisão cirúrgica, a atmosfera de mistério de Arquivo X e a densidade narrativa da minissérie Taken (aquela icônica produção de 2002 também apadrinhada por Spielberg).
Essa semelhança não é mera coincidência. O roteiro, assinado pelo colaborador de longa data David Koepp, foca no pós-descoberta. A trama se desenvolve em torno do pânico coletivo, do acobertamento governamental e do abismo que se abre quando segredos guardados por mais de oitenta anos começam a vazar pelas frestas de uma sociedade hiperconectada. Há uma sensação constante de vigilância, de que as verdades estão sendo deliberadamente silenciadas nos bastidores do poder, exatamente como as investigações de Fox Mulder e Dana Scully sugeriam.
O Fator de Divisão: Drama Humano vs. Expectativa de Blockbuster
O que realmente está deixando as pessoas divididas é o ritmo e o foco do filme. Spielberg escolheu colocar a câmera no chão, no nível das pessoas comuns e dos oficiais que precisam lidar com o peso burocrático de uma revelação dessa magnitude. O elenco de peso — liderado por uma atuação visceral de Emily Blunt, acompanhada por Josh O'Connor e Colin Firth — entrega um drama focado em reações humanas, colapsos de comunicação, saúde mental e o embate entre dogmas religiosos e a ciência.
Para o espectador acostumado com o ritmo frenético do cinema de ação moderno, o andamento do longa pode parecer deliberadamente lento, quase documental em alguns trechos. No entanto, é justamente nessa sobriedade que reside sua maior força. Em vez de focar no visual dos visitantes cósmicos, o filme se volta para o espelho: como nós reagimos ao estrangeiro? Como o medo do desconhecido é instrumentalizado por governos e mídias?
Conclusão: Um Espelho do Nosso Tempo
"Dia D" não é um filme de respostas fáceis ou de catarse visual pura. Ele opera na frequência do desconforto. Ao sair do cinema, o debate gerado na calçada é o maior indicador de que Spielberg atingiu seu objetivo. Ele pegou um tema clássico de sua carreira e o atualizou para um mundo cínico, polarizado e desconfiado das autoridades.
Se você aprecia tramas onde o silêncio, o segredo e o peso de uma revelação global importam mais do que explosões espaciais, encontrará aqui um prato cheio. É uma ficção científica madura, que exige paciência, mas recompensa quem aceita mergulhar em sua névoa de conspiração.
Sobre Beatriz Fontana
Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.
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