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A Passagem (2005)

A Passagem (2005)

10 de April, 2026 3 min de leitura Beatriz Fontana Beatriz Fontana

Existem filmes que assistimos para relaxar e existem filmes que exigem que montemos um quebra-cabeça enquanto a imagem ainda está sendo projetada. "A Passagem" (Stay), lançado em 2005 e dirigido por Marc Forster, pertence definitivamente à segunda categoria. Frequentemente negligenciado em seu lançamento, o longa se tornou uma obra cultuado por sua montagem frenética e roteiro labiríntico escrito por David Benioff.

Ryan Gosling em A Passagem

A Trama: Um Cronômetro para o Inevitável

A história acompanha Sam Foster (Ewan McGregor), um psiquiatra que assume o caso de um jovem estudante de arte, Henry Letham (Ryan Gosling). Henry é um paciente atípico: ele ouve vozes, prevê o futuro com uma precisão perturbadora e, o mais alarmante, confessa que pretende se suicidar à meia-noite do próximo sábado, quando completa 21 anos.

O que começa como uma tentativa desesperada de um médico para salvar seu paciente rapidamente se transforma em uma descida ao surreal. Sam começa a notar que a realidade ao seu redor está "vazando". Pessoas repetem frases estranhas, gêmeos e trigêmeos aparecem em cada esquina e as leis da física e da continuidade parecem não se aplicar mais à cidade de Nova York.

A Estética do Desconforto

Um dos pontos mais fortes de A Passagem é sua direção de arte e montagem. Marc Forster utiliza transições de cena que desafiam a lógica espacial. Um personagem sai de uma porta em um consultório e entra diretamente em uma escadaria de metrô, criando uma sensação de sonho lúcido ou pesadelo persistente.

  • Simbolismo Visual: O uso constante de padrões repetitivos e arquitetura brutalista reforça a sensação de aprisionamento mental.
  • Paleta de Cores: Tons frios e dessaturados que contrastam com momentos de luz intensa, simbolizando a transição entre estados de consciência.
Ewan McGregor e Ryan Gosling conversando

Elenco de Peso

Ryan Gosling, ainda em uma fase ascendente de sua carreira, entrega uma performance crua e vulnerável. Seu Henry Letham é o coração emocional do filme; um jovem consumido por uma culpa avassaladora que não conseguimos entender completamente até os minutos finais. Ewan McGregor serve como nossa âncora na realidade, enquanto Naomi Watts traz uma camada extra de melancolia como a namorada de Sam, que também possui um histórico de fragilidade psicológica.

Por Que Assistir? (Sem Spoilers)

Se você é fã de obras como Donnie Darko, Cidade das Sombras ou os filmes de David Lynch, "A Passagem" é obrigatório. Ele não entrega respostas fáceis. O filme trata de temas universais como:

"O mundo é uma construção da mente, e às vezes, as rachaduras nessa construção revelam verdades que não estamos prontos para encarar."

A experiência de assistir a este filme é comparável a observar uma pintura expressionista: os detalhes individuais podem parecer distorcidos, mas o impacto emocional do conjunto é devastador.

O Legado de um Enigma

Embora tenha sido recebido com ceticismo pela crítica na época, o tempo foi generoso com "A Passagem". Hoje, ele é estudado por sua técnica de edição inovadora e por sua coragem em manter uma narrativa ambígua. O clímax do filme é uma das sequências mais visualmente poéticas do cinema dos anos 2000, unindo todas as pontas soltas de uma forma que exige uma segunda visualização imediata.

Prepare-se para questionar o que você vê. Em "A Passagem", a jornada é muito mais importante que o destino, embora o destino seja algo que você dificilmente esquecerá.

Beatriz Fontana

Sobre Beatriz Fontana

Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.

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