refugioaurora
Viver (2022): Uma Redescoberta da Existência

Viver (2022): Uma Redescoberta da Existência

03 de April, 2026 3 min de leitura Beatriz Fontana Beatriz Fontana

Em um mundo saturado por narrativas de super-heróis e épicos de ação, o cinema britânico entregou em 2022 uma obra de quietude ensurdecedora. Viver (Living), dirigido por Oliver Hermanus e roteirizado pelo vencedor do Nobel Kazuo Ishiguro, não é apenas um remake; é uma transposição espiritual do clássico Ikiru (1952), de Akira Kurosawa, para a Londres pós-guerra dos anos 50.

Representação de cinema clássico e melancolia
A estética de 'Viver' resgata o rigor e a elegância do cinema clássico.

O Despertar de um Homem Comum

Bill Nighy entrega a performance de sua carreira como o Sr. Williams, um burocrata veterano cuja vida se resume a pilhas de processos e uma rotina gélida. Ele é o rosto da "morte em vida" — até que um diagnóstico terminal de câncer de estômago o obriga a encarar o vazio de sua trajetória. A genialidade do roteiro de Ishiguro reside na contenção: não há gritos de desespero, apenas a percepção lenta de que o tempo é um recurso finito.

A Estética da Londres de 1953

O filme utiliza uma proporção de tela clássica e uma paleta de cores que evoca o Technicolor da época. Essa escolha visual coloca o espectador dentro da rigidez social britânica, onde expressar sentimentos era considerado uma fraqueza. A trilha sonora delicada acentua a solidão do Sr. Williams enquanto ele caminha pelas ruas cinzentas, tentando encontrar um propósito em seus meses finais.

"A vida é curta, apaixone-se, menina... antes que o sangue se esfrie." — A canção 'The Rowan Tree' torna-se o fio condutor emocional da obra.

O Legado de Kurosawa e a Escrita de Ishiguro

Muitos cinéfilos temiam que uma versão ocidental de Ikiru perdesse a essência existencialista japonesa. No entanto, a sensibilidade de Kazuo Ishiguro (autor de Vestígios do Dia) provou ser o encaixe perfeito. A burocracia japonesa e a etiqueta britânica compartilham paralelos surpreendentes de repressão e dever, tornando a jornada do protagonista universal.

Londres histórica e névoa
O cenário londrino serve como metáfora para a barreira burocrática enfrentada pelo protagonista.

Por Que Assistir a 'Viver' Hoje?

  • Performance Minimalista: Bill Nighy utiliza apenas o olhar e a postura para transmitir décadas de arrependimento.
  • Reflexão Filosófica: O filme questiona o que deixamos para trás. No caso de Williams, é a luta pela construção de um simples parque infantil.
  • Beleza na Simplicidade: Diferente de dramas pesados, 'Viver' termina com uma nota de esperança resiliente.

Conclusão

Viver é um lembrete gentil de que nunca é tarde demais para começar a existir de fato. É um filme que não exige apenas visualização, mas contemplação. Ao final dos créditos, a pergunta que fica para o espectador não é sobre a morte de Williams, mas sobre como estamos utilizando a nossa própria vida hoje.

Beatriz Fontana

Sobre Beatriz Fontana

Para mim, a vida é melhor em 24 quadros por segundo. Sou crítica de cinema e trago para você o olhar por trás das câmeras, do cult ao blockbuster.

Comentários Exclusivos

A seção de comentários é reservada para assinantes Pro e Master.